BBB: O DESPERTAR DE NADA
Há mais de uma década certa emissora
brasileira de televisão apresenta na programação de início de ano um reality que tem como conteúdo a reclusão
de diversas pessoas sobre o mesmo teto durante um tempo, fazendo coisas banais
e, na maioria do tempo, fúteis e até violentas. Pode parecer estranho, mas isso
atrai o público tupiniquim. É sabido que, em outros países, de elevado nível
cultural, este modelo de “entretenimento” não passou da primeira temporada, o
que gera uma dúvida central no que diz respeito aos telespectadores do Brasil:
o que os atrai? Pensemos em algo, primeiramente, no fetiche.
Os estereótipos expostos na jaula são, predominantemente, de corpos
musculosos e definidos para os homens e seios e bumbuns “fartos” às mulheres.
Ao enquadrarmos esses elementos dentro de uma leitura sexual, temos a afirmação
da categoria do fetichismo, enunciada
por Marx em O Capital, no que tange ao consumismo
inconsequente, uma mágica, um sonho real de se apropriar de certa mercadoria e
ela o satisfazer espiritualmente. Ora, entende-se que, diante dos padrões,
seria doentio uma comunidade guiar-se por esses moldes corporais que, no
entanto, evidenciam-se como apogeu da beleza humana. Querer o corpo dos brothers implica em duas situações:
primeira, aceitar uma parâmetro criado para vender produtos e práticas de
beleza e tornar-se um escravo do corpo; e, segundo, querer para si alguém
fisicamente “desenvolvido” como o que se vê nas camas e piscinas da casa, recusando quem está ao lado.
Um grande filósofo brasileiro disse
a mim, certa vez, que o BBB é “uma jaula cheia de animais pré dispostos a
prostituição, em uma cena de masturbação coletiva”. Concordo, e mantenho seu
posicionamento, neste pansexualismo midiatizado. Os mecanismos de defesa de Freud se enquadram muito bem aqui.
Isso posto, pensemos em outro
elemento que possivelmente pode motivar os acompanhantes do reality: a “fofoca”. Isso mesmo. Cuidar
da vida dos outros tornou-se uma prática rotineira nos dias atuais. A era das
mídias digitais nos trouxe um verdadeiro arsenal de fofocas, nos possibilitando
“conhecer” a vida de conhecidos, parentes ou estranhos, com belos escândalos de
traições no WhatsApp ou as viagens “odiosos” daqueles chatos, para a praia. Ter
diversas pessoas para cuidar da vida, como se apresenta no programa, além de os
próprios internos que cuidam da vida uns dos outros pelo tal jogo em andamento, o eleva a condição de
Vida Real, a exemplo da música tema
extraída de Paulo Ricardo.
Um conceito significativamente
enfatizado nos últimos anos para atender o público “cult”, que procura um "motivo" para assistir a esse
entretenimento é: empoderamento. Nas últimas edições, pelo que vejo nas
conversas de “intelectuais”, é
importante utilizar as paredes vigiadas para deixar uma mensagem sobre a
igualdade racial, tolerância religiosa, homofobia, feminicídio ou outros temas
em voga na atualidade, para dar um caráter sério e problematizar a um reality
que é a mais pura negação de qualquer valor humano, ao transformar a vida de
homens e mulheres em invadida, vigiada e controlada pelo tal público. O
mistério é compreender como seus telespectadores se iludem ao ponto de
acreditarem em alguma palavra ou atitude do atores
de improviso envolvidos.
Mais um tópico envolvido, que também
se iguala ao fetiche é o da ambição.
Ter uma casa, piscina, eletrodomésticos, academia, camas, luminárias ou
qualquer coisa exibida na casa – no estilo
dos efeitos produzidos nas novelas, em especial, no Caminho das Índias e sua ampla venda de acessórios –, alimenta o
desejo do consumo, da mudança, ou, ao menos, da satisfação ter uma belíssima
mesa de jantar dentro de nossa casa ou de um gato tomando sol, mesmo que seja pela TV. O trabalhador brasileiro
é alimentado pelos sonhos e morto de fome pela realidade.
O apreço por tal entretenimento, que
não é igual a uma novela (vi diversas comparações), dirigida, roteirizada e com
atuações profissionais, talvez (opinativamente), represente uma carência de
possibilidades de lazer e boa programação. Por outro lado, esses minutos
diários excluem, eminentemente, um tempo para a leitura de um bom romance
nacional ou inglês (que gosto muito), assistir um belo filme, fazer uma caminhada
ou outras formas de crescimento humano real, dentro de costumes que, com o
perdão da expressão, denominamos aqui de virtuosos.
Em geral, o que esperamos de nosso
lazer é um despertar de emoções, sentimentos, até comportamentos positivos,
dentre os quais, maior tolerância, acolhimento, resiliência, companheirismo. É
isso que senti, por exemplo, ao assistir o drama de um Coringa, menosprezado e violentado por uma sociedade que não se
importa com ninguém e faz de sua maior lei machucar o próximo. A era da
individualidade em que estamos revela, por meio da sociedade doente, que não
podemos ser nada além de animais presos, e nisso, o BBB tem razão. Somos presos
assistindo a outros. Este reality,
para mim, é um dantesco gerador de nada.
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