BRASILEIRO, O PERITO DE TUDO DE
NADA!
Antigamente, acreditava eu que a
ignorância do brasileiro médio se reduzia aos campos político-partidários; à
intolerância religiosa e à violência esportiva, dentre outros elementos básicos
de nossa sociocultura. Com o tempo – e os recursos de mídia –, se revelou em
nossa história uma ampliação do campo da ignorância à diversas áreas, de
inúmeras naturezas, dando-me a impressão de que, a manifestação não passa, em
último grau, de um pedido de atenção egoico como um “eu estou aqui, me vejam” e
a necessidade de integração a grupos, que, afinal, detém a possibilidade de
eliminar o suplício da condição existencial solitária, limitada e mortal que
temos.
No que concerne a política, temos um
cenário apoteoticamente frustrante, com um exercício popular ideológico de
repetições de jargões; reproduções de estatutos partidários; defesas
incondicionais de condicionados; e uma limitada percepção material, que não
permite, por um lado, uma análise hitórico-dialética da economia e do uso dos
bens públicos, que necessariamente e, discursivamente, são aceitos, ainda que dissociados
das causas populares e guardando sua regulação por um Estado corrupto e sem capacidade
administrativa para gerar segurança e confiança no pleno exercício da cidadania,
mesmo diante de dificuldades gerais e peculiares, como é o caso da Covid-19.
As discussões midiáticas,
espetacularizadas, demonstram, por uma lado, um baixo senso de conhecimento
sobre políticas públicas; economia; integração; globalização; e percepção a
médio e longo prazo do desenvolvimento de um Estado, neste caso, diante de uma
doença infecto-contagiosa. Por outro lado, afirma, mais uma vez, a fragmentação
da população brasileira, que confirma e defende ideários, mais por uma caráter
místico e individual, que realista e coletivo. As defesas partem, portanto, de idiossincrasias que não
competem a um pensamento de equalização geral, mas de benefício privativo, o
que confirma a modelação capitalista da mente contemporâneo e dos comportamentos,
extremamente associados ao status
liberal, de raízes fincadamente positivistas.
É possível, neste estado de consciência, defenderem-se discursos
eugenistas, a exemplo do proferido pelo atual presidente; políticas empresariais
e bancárias; características dos últimos quatro governos da democracia; e a
predileção da morte em detrimento a vida, desde que se caminhe por um lado
supostamente produtivo e, não menos que, supostamente, seguro.
Apoiar o modelo econômico atual; as ações governamentais; os discursos medíocres,
despreparados e, por vezes, genocida e eugenista, do atual presidente; além de
considerar todo seu histórico de homofobia, machismo, racismo, dentre outros
absurdos, é o mesmo que considerar progresso o avanço.. ainda que direcionado
ao precipício. Isso nem deveria ser alvo de discussão no século XXI. É algo tão
insano que se um homem faz esse tipo de discurso em países desenvolvidos,
sobretudo, na Alemanha e Japão, seria imediatamente preso por atentado à nação.
As desculpas giram em torno de “a economia vai quebrar”; “o país não
pode parar”. Ora, quais foram os últimos dados e estatísticas revelados sobre a
economia brasileira? Seria desconhecimento ou mau caratismo não considerar que
o país se encontra quebrado há tempos e não avançou 1% sequer, se fizermos uma
leitura sólida das condições de empregabilidade; das reformas empreendidas e
ineficazes até agora; a perseguição e corte nas condições de trabalho de
funcionários públicos e privados; e o completo “esquecimento” das benécias da
classe política, jamais suprimida em governo algum e ampliada no atual. Se você
é tão crítico aos outros governos, ainda que sem dados, e discute por meio de
montagens de internet em fotografias que você jamais conferiu a fonte do que se
afirma, porque não critica uma reforma previdenciária que não atende aos
princípios básicos de tempo de vida do sujeito trabalhador e exclui o poder
judiciário, militares e os POLÍTICOS? Isso se chama hipocrisia!
No lado econômico, algumas dicas. Primeiro, a economia nacional depende,
majoritariamente, da economia externa, que está em colapso. O Estados Unidos,
por exemplo, cita a recessão como consequência projetada e inicia protocolos
para tal. A China, que cresce quase 10% ao ano, se estagnará em 2%, de acordo
com as projeções internacionais. Esses países são os sustentáculos da economia
nacional, portanto, ainda que todos os brasileiros estivessem em pleno
trabalho, entraríamos na crise, que é mundial, neste ano. Aqui podemos voltar,
a título de demonstração, aos números de nossa própria economia, que expressou
um PIB de 1,1% e tem a projeção de crescimento 0 (zero), para 2020 – antes da
crise sanitária, é bom que se diga. O dólar, a 5 reais, torna a transação
interna cara e traz modificações transitórios ao mercado exportador, sobretudo,
o agronegócio, que é a fonte primária de renda de nosso país predominantemente
rural. Ainda que com ganhos, perde-se totalmente o protecionismo, necessário,
em certos momentos. Os índices de pobreza aumentam dia após dia, sendo que, na
última PNAD contínua e pesquisas internacionais, retornamos aos estágios da
miserabilidade superados em tempos de políticas sociais.
Se reabrirmos as fronteiras, a
exemplo da China, sem que o mundo supere totalmente a efetividade e caos desta
doença, podemos passar pela mesma configuração – segunda onda – que se emerge
da contaminação por visitantes. Isso condena, portanto, um dos mercados mais
significativos de nosso país, o turismo. Mas o fato é que, no Brasil, o pico se
fará em abril, isto é, aos iludidos, “a doença não foi tão ruim assim e vamos
retornar”, que são mais ou menos as palavras do vendido ministro da saúde, que
se contradisse vergonhosamente, para amparar o maluco (sem) beleza de seu
chefe.
Especificamente sobre a doença que
nos aflige, estratégias internacionais, como, por exemplo, adotadas por grandes
potências, tal qual a Inglaterra, não foram suficientes e, ao contrário,
aumentaram o contágio. Sobre a tutela do extrema direita Boris Johnson, o
mercado não fechou, as atividades não pararam e foram realizados apenas os
isolamentos de idosos. Três dias depois, o próprio, cravou a quarentena a todo
o país, algo que o Reino Unido havia adotado anteriormente, antecipando-se ao
liberal. No Brasil, que não é lá uma Inglaterra e, ao contrário, não tem ao menos
saneamento básico em regiões nordestinas; temos significativa concentração
populacional em sudeste e sul, como conter uma pandemia que se mostrou
altamente contagiosa no mundo todo? Seremos a nova Itália? Que ignorou e subestimou
a doença e agora retira seus mortos com caminhões? Nós aqui nos contaminamos
por coliformes fecais, tamanha higiene.
Temos 90% dos leitos públicos
ocupados, e 80% dos privados. O sistema de saúde brasileiro não suporta
qualquer avanço de 10% de internações, independente da natureza do sistema.
Materialmente, os hospitais não estão dotados de estruturas e utensílios
capazes de manter um tratamento de uma semana e este vírus, tem uma vigência
de, ao menos, vinte dias.
Os patrões, das macro empresas, não
se importam nenhum pouco com a crise. Entenda, trabalhador, é você quem vai
pagar a conta e encher o bolso dele, e ele, vai jogar algumas moedinhas no seu.
Tal qual o velho Marx (1983, p. 37), “[...] Dizer que o operário tem interesse
no crescimento do capital significa apenas isto: quanto mais rapidamente o
operário faz aumentar a riqueza alheia, mais abundantes serão as migalhas que
ele recolhe do banquete; quanto mais operários se empregarem, e quantos mais
nascerem, mais se multiplicará a massa de escravos dependentes do capital.”
Se o governo executa, por exemplo,
dívidas previdenciárias de Varig, JBS, Vasp, entre outras, acrescenta em seu
caixa quase 10 bilhões. Além dessas falidas, outras empresas em atividade devem
valores similares. Não é possível que você não há de crer que, o governo e o
macro empresariado não estão do seu lado. Pensemos no salários de deputados,
que com verbas adicionais como “paletó”; “gabinete”; “correios”, chegam aos 200
mil mensais. Os membros de executivo têm até o final da vida, além dos salários,
diversos benefícios como motoristas particulares, seguranças, sistema de saúde
e uma série de outros recursos. Tem certeza que você quer lustrar as bolas do
seu político, daquele fez arminha, QUE É O ATUAL?
Empresariamente dizendo, você não é
importante para o seu patrão! É só um número (quem já trabalhou em mais de uma
empresa sabe). Entenda. Você é importante à renda do patronato e não ao patrão.
É como o comércio: o dono da loja ou do mercado só é seu amigo quando você paga
a compra. Não existe essa relação afetiva que você fantasia. Você e outro, se
fizerem o mesmo serviço, pouco importam quem são. Por outro lado, é preciso
apoiar o pequeno e médio negócio, esses, de fato, podem quebrar em um mês, sem
chances de recuperação. O apoio deve vir diretamente do governo, sem dúvida, afinal,
o enriquecimento de bancos; de montadoras de carros; perdão de dívidas; não
execução de impostos; como é feito com os macros, historicamente, pode ser
empregado em benefício dos micro e médio empresários e sustentá-los por algum
tempo, para que, nestes termos, sustentem seus funcionários. Vejo neste campo,
inclusive, um ódio do macro ao micro. De todo modo, o Estado deve garantir a
permanência dos contratos e salários, o que foi exatamente refutado pelo atual
presidente, diante da Medida Provisória n.º 927. É assim que se procedeu
historicamente e assim deverá ser. Por isso as críticas que você não entendeu.
O que você, mal informado ou cego,
teima em não entender, é que o discurso mitológico não é para o seu benefício.
Quando Johnny Bravo trata de economia, trata especificamente do empresariado, e
acima de tudo, do internacionalizado. Que tipo de ser humano, seja presidente
ou a vovó da vizinhança, afirma que quem tem histórico de atleta não precisa se
preocupar, em um país dominado pelo sedentarismo? Qual é a fonte? Qual autor?
Galahue? Dados? “Ahh, mas ele falou dele, exclusivamente”. Que tipo de líder
chama uma entrevista para falar da importância de si mesmo, enquanto padres
italianos rezam e concedem seus aparelhos a doentes mais
novos, se condendando ao suicídio? Que tipo de líder, diz que uma pandemia
mundia é uma “gripezinha”? Que tipo de líder diz que “o Brasil é uma virgem que
todo tarado quer”? Que tipo de líder se autodenomia o “Johnny Bravo”? Que tipo
de líder pergunta se a repórter “quer dar o furo”? Que tipo de imbecil é esse? Tem
certeza que defender esse ser humano é defender o país?
Usem a memória, o intelecto, e tudo
que lhes resta, afinal, na situação em que estamos, uma quarentena seria bem
vinda para praticarmos hábitos intelectuais e nos qualificarmos como gente.
Deixemos de ser peritos em tudo de nada; deixemos de morder a isca
político-histórica que não quer a ampliação de nossos conhecimentos pelo perigo
ao status quo; deixemos
de defender uma ideia ou crença sem antes questionar por qual motivo nos
apegamos a ela, como registrou o brilhante Nietzsche. Temos que sobreviver. Mas
isso só será possível com a diminuição da ignorância, essa é grande doença, pois
nada matou mais na história que a burrice aliada a maldade.
Um abraço!
















